Pe.Flávio Cavalca de Castro CSsR
CAI A TARDE, TANGEM SINOS
DESCE O SOL, ALÉM DO MAR
ALMAS MIL ,SAUDOSOS HINOS
POEM-SE PRESTES A CANTAR
QUANDO VEM O FIM DO DIA
SANTA VIRGEM, MÃE MARIA
VÓS , ESTRELAS, LÁ DO CÉU
LÁ DO CÉU, LÁ DO CÉU
VÓS ESTRELAS, LÁ DO CÉU
CONDUZI-NOS AOS CÉUS
CONDUZI-NOS ATÉ DEUS
Grande músico, compôs muita coisa, mas destruiu quase tudo!....
A poesia-oração acima não foi destruída...
Um dia ele a cantarolou perto de mim e em mim ficou....
Foi o meu maestro no coral, quando com 13 anos tinha voz de soprano e aos 18, ao ter mudado de voz, passou-me a segundo tenor.
Quantas músicas aquele coral cantou, inclusive na basílica velha de Nossa Senhora Aparecida.
Num dia de ensaios o Pe.Viesse pacientemente conduzia o coral no palco do salão de festas do seminário. Estava nos preparando para as solenidades do dia 1ºde Agosto, Santo Afonso Maria de Ligório, o fundador dos redentoristas!
O coral compunha-se das vozes soprano, alto, 1ºtenor, 2ºtenor e baixo. Geralmente a turma dos menores fazia o soprano e o alto e os maiores faziam os tenores e baixo.
A turma dos médios ficava fora, pois estavam mudando de voz e o seu som era de “taquara rachada”.....
De repente, dei um tremendo fora num estridente agudo totalmente alheio à boa harmonia dos demais.
-VOCÊ ESTÁ MALUCO, TAMPINHA! – gritou o Padre Maestro, sem parar de reger...
Naquele momento fiquei totalmente irritado, sentia frio por dentro e tremor por fora.....Calei-me....Não cantei mais, ainda que estivesse bem ao lado dele....Fiquei calado até o fim do ensaio...
Antes de dispensar a turma, o Pe.Viesse voltou-se para mim e publicamente, em alto tom, mas sem gritar, falou:
-O que aconteceu, Tampinha? Por que parou de cantar?
Permaneci calado, por dentro mais frio e por fora mais tremedeira.....e ele continuou:
-Isso não é próprio de um seminarista! Olhe você é um “olha-eu” desgraçado, precisa saber que sua voz, ainda que bonita deve harmonizar-se com as outras...-e voltando-se para todos :
-Estão dispensados!
Esse fato foi muito importante na minha existência! Se não fosse assim não sei a que pináculo da minha vida teria tentado galgar e que tremenda queda um dia poderia vir a ter....
Ele me mostrou naquele momento, quando procurava o caminho do ideal: “Padre, Missionário, Redentorista, Santo”, que estava, ainda precocemente, vagando pela vaidade e desconhecendo a verdadeira humildade.
Isso serviu para toda a minha vida.
O coral era muito bom, algumas vezes chegamos a representar musicalmente a Paixão de Cristo ...no balcão da velha basílica de Nossa Senhora Aparecida, ao lado daquele imenso órgão de tubos...
” et dixerunt: Hic dixit: Possum destruere templum Dei, et post triduum reædificare illud.”...
“Reus , reus est mortis”....
“Et tu cum Jesu Galilaeo eras.”....
“Et hic erat cum Jesu Nazareno.”
E a “Messa Gaudiosa in onore della B.V. di Lourdes” de Franco Vittadini, nas grandes solenidades do seminário.
Esses compassos nunca deixaram minha bossa musical.
Foi o meu maestro na banda que me iniciou no triângulo, depois o sax-trompa e, por fim, o piston...
E as músicas: Última Inspiração, Luar do Sertão, Saudades de Matão e outras tantas do nosso cacioneiro...
Desfilávamos pelas dependências do seminário e até chegamos a participar de cerimônias da cidade de Aparecida.
Tenho saudades desse mestre de batina, cinto e rosário suspenso...
...e, na discrição de sua batuta e partitura, estava a mensagem de Deus.....
Que Deus o tenha para sempre, caro mestre!
Antônio Ierárdi Neto
(Tampinha)
Amigo Ierárdi!
Obrigado por nos lembrar sempre figuras que marcaram nossa vidas.
Pe. Délcio Viesse é uma delas. E que figura! E que marcas deixou!
Mais feliz estou hoje porque, ao celebrar a entrada na vida eterna desse nosso grande mestre na música, celebro a entrada, nesta vida, da caçula das minhas meninas: Maria Cristina.
Um abraço.
A. Bicarato(+)
Que feliz coincidência....
As datas têm muita correspondência e importância em nossas vidas e, quando nos apegamos às pessoas, tornam-se inesquecíveis!!!! Um grande abraço!
Ierárdi
+4.jpg)
Lindo. Lindo, tudo o que aqui está escrito sobre este grande mestre. De Música e de Geografia.
Na música, aprendi com ele tudo que sei. A ler partitura, a tocar na banda o sax horn. Depois, o trombone de pisto. Ah! que saudade de ser "bandido" da Banda do Santo Afonso. Saíamos para tocar em cidades próximas. Uma vez fomos a Cunha...
Na geografia, é só citar alguma cidade do norte do Brasil que me faz lembrar o Pe. Viesse. Motivo? Acho que foi o assunto da geografia que nos lecionou no longínquo 1964: Região Norte.
E uma perguntinha com a qual brincávamos, jocosa e infantilmente, naquele tempo:
Se o Pe. Viesse viesse, o que o Pe. Faria faria?
Abraços
Antônio Carlos - Sacristão(+).
Caro Tampinha,
Tenho a impressão, de que quando você deu um grito fora do conjunto, ele deve ter quebrado a estante da partitura com um murro bem dado. Ele não tinha muita paciência, não.
Um vez, numa aula de música, não sei porque, ele rachou a mesinha de pau ferro (aquelas mesinhas de madeira negra muito pesada e dura) com um murro, bateu a porta e foi embora.
Aquele organista Elenir, não sei é esse o nome dele, teve um entrevero muito forte com ele a ponto de o organista quase ter abandonado o oficio de ser organista.
O problema que ele era muito perfeito e tinha um ótimo ouvido, não perdoava desafinamento.
Abraços
Abner
Meu colega e amigo Abner!
Pois é, nós convivemos muito esse espírito quente do saudoso Padre Viesse.
Mas sempre foi estimado e hoje é saudoso.
Isso porque em primeiro lugar naqueles nossos tempos sabíamos distinguir, e muito bem, o que era vaidade e humildade, assim sempre reconhecer quanto estávamos errados.
Em segundo lugar, o Padre Viesse era MÚSICO.
Muito dificilmente se veem músicos calmos e tranquilos.....Eles, pela sua bossa musical e inspiração, são sempre agitados e o nosso querido padre não fugia à regra.
Como mencionei, aquele “pito” foi-me muito produtivo na vida....afinal o que se aprende em primeiro lugar é sempre olhar para si apenas....mas a chamada foi muito importante para perceber que aquele não era o caminho bom...por isso agradeço muito ao nosso estimado maestro!!!!Um forte abraço!
Ierárdi
Caro Tampinha,
Verdade, apesar de seu sangue quente, era bem compreendido e amado por todos, não quis dizer que ele não era bom, era e muito. Na época, fiquei muito triste ao saber de sua morte, sabia de seus problemas de circulação e que tinha sido operado.Eu nunca sofri reprimenda dele, pelo contrario, só muita atenção e carinho.Abraços
abner