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BENEDITO FRANCO |
Meus
contos são verdadeiros, mas narro-os da maneira que os senti, vi ou ouvi no
momento do acontecido – mesmo que posteriormente contaram-me diferente.
NB.: Pode
ser distribuído para os colegas, se assim o desejar.
Juvenato
e Juniorato
061 – Coroinha
* Mamãe, muito religiosa, ia a todas as missas possíveis e impossíveis também.
Nos meus oitos anos, encaminhou-me para ser coroinha - falava em eu ser
padre. Aliás, meu irmão mais velho, o Pedro Célio, estudou no histórico Caraça,
um seminário dos Irmãos Maristas - no meio de uma grande serra de minério de
ferro, no município de Catas Altas, perto das também históricas Santa Bárbara e Barão de Cocais, MG.
Aliás, há uma ferrenha briga entre Santa Bárbara e Barão, os dois reivindicando
a posse do Caraça para seu município.
Além de proporcionar bolsas de estudos para alguns seminaristas, minha mãe
ficava de olho nos padres:
- Zé Franco, o padre tal está com o sapato velho, compre um
para ele. Ou:
- Zé Franco, o outro está com a batina desbotada e o paramento não está bom...
- Zé Franco... a camisa do padre...
Nas grandes festas, como a do padroeiro São Sebastião, havia os festeiros - o
cargo mais importante do lugarejo. Papai e mamãe festeiros, poder-se-ia esperar
festa de arromba - o dinamismo, a vivacidade e a liderança de mamãe, mais o
apoio de papai, abrilhantavam quaisquer festas.
Sonho maior de mamãe: um filho padre. Mais tarde realizado - o nono dos
doze filhos ordenou-se - Padre Geraldo Ildeo Franco.
O Padre Deolindo ensinou-me as respostas que o coroinha respondia durante a
missa, em latim. Como é complicado decorar algo que você não entende - para
dizer a verdade, nem sabia o que era o latim ou que existia outra língua que
não a nossa.
É... mas acabei aprendendo e papagaiando meu latinorum todos os dias na
capelinha de Nossa Senhora Auxiliadora, do Hospital Siderúrgica, ao lado da
casa paroquial de Fabriciano, ou na capela de São Sebastião, no alto do morro,
entre a matriz de São Sebastião e a casa paroquial atuais. Ainda me lembro:
"Confiteor Deo omnipotenti..." (eu me confesso a Deus Onipotente).
Interessante que papagaiava o latinorum todo errado e no seminário, apesar de
saber bem o latim, falava as respostas da missa todas erradas, como aprendi.
Quando Dom Helvécio aparecia, arcebispo de Mariana, sede do arcebispado a que
Fabriciano pertencia, chegava em um carro especial da Estrada de Ferro Vitória
Minas - carro lindo e de luxo. Recebido pelo Dr. Joaquim, o Coronel Silvino Pereira, o
vigário e as pessoas mais importantes de lugarejo - eu olhava o carro, com toda
sua eminência e imponência, com olhos arregalados!... Mas um dia consegui
entrar naquele carro, decorado por dentro com cetim e babados, tudo branco –
fiquei extasiado! É! O Arcebispo... Sua Excelência Reverendíssima era muito
importante mesmo!... Já não se fazem mais bispos como antigamente!
Ajudava a missa
do arcebispo e depois era convidado para tomar café, na mesa, junto com ele, na
casa onde se hospedava, do Dr. Joaquim, Superintendente da Belgo Mineira na
região. Num desses cafés, presenteou-me com um seu retrato, igual ao colocado
em todas as paróquias da arquidiocese, como os do Presidente da República e do
Governador nas repartições públicas.
Dom Helvécio
idealizou, lutou e concretizou, o Parque Florestal, assim como o caminho pela
ponte velha, atravessando Fabriciano e indo para Ipatinga, passando pelo
Caladinho.
Comentava-se que Dom Helvécio recebera o título de General, conferido pelo
Presidente Getúlio Vargas; tinha também um irmão bispo; faleceu em um colégio
de Fabriciano, o Angélica, onde mais tarde fui professor de matemática, e onde
se fez um desenho de seu perfil, riscado por uma irmã, sobre a sombra de seu
rosto, na parede ao lado da cama onde morreu.
O
Superintendente da Belgo Mineira era o rei da região. Rei nada... Imperador!
Mandava e desmandava. Colocava-se o delegado numa ótima casa da Belgo,
principalmente para resolver questões de terra - da Belgo contra os
fazendeiros... Perceberam quem ganhava - é o que se comentava. Um fazendeiro me
disse que defendeu, a bala, uma invasão do pessoal da Belgo, de um pedaço de
terreno de uma de suas fazendas. Quando pequeno, ouvia cada barbaridade...
Minha mãe, orgulhosa de minhas funções
de coroinha, não me deixava ajudar a missa sem sapato - nem que fosse só com um
- até criticavam dizendo que usava um pé de sapato para poder economizar -
andando sempre descalço eu machucava muito os pés, pois gostava muito de jogar
bola, correr e brincar nos campos. Na época, todo menino andava sem sapatos - a
não ser para ir à missa - até mesmo na escola ia descalço – e como os sapatos eram
duros e desconfortáveis... Quando não eram os machucados, eram os calos...
Os meninos andávamos de calças bem curtas - hoje seria um short curtíssimo.
Como coroinha, usava uma batina preta e sobrepeliz branca - os padres, de
batina preta constantemente, recebiam a tonsura - uma coroinha na cabeça (raspavam,
no alto da cabeça, uma roda de uns quatro a cinco centímetros de diâmetro). As
missas em latim, com o padre virado para o altar e não para o povo e em jejum
absoluto; as missas obrigatórias aos domingos; a comunhão dos fiéis também em
jejum absoluto.
Quando Fabriciano lutava para se emancipar de Antônio Dias, donde era Distrito,
uma comissão de moradores ilustres fabricianenses - entre eles papai, Dr.
Rubens, Dr. Albeny, Dr. Joaquim, Coronel Sylvino Pereira, Sr. Lauro Pereira,
Sr. Raimundo Alves, João Bragança, Claudiano, e o vigário Padre Deolindo - foi
a Belo Horizonte conversar e convencer o Secretário de Governo encarregado do
caso. Expôs ele a impossibilidade de Fabriciano passar a cidade, por não haver
um documento demonstrando a quantidade de moradores da área a ser emancipada -
englobava os municípios de hoje:
Timóteo, Ipatinga e Fabriciano.
Toda a comissão apavorada! Mas, Padre Deolindo, nosso humilde e pacato
vigário, dirigiu-se ao Secretário:
- Um
levantamento de batizados que acabo de fazer, acho preencher a exigência; nele
constam um pouco mais pessoas do que Vossa Excelência exige. Serviria? Retirou
do bolso da batina alguns papéis embolados, desamassou-os, acertou-os e os
mostrou ao Secretário. Este leu - expectativa geral e comoveu a todos - e
bradou:
-Isto serve! Fabriciano será emancipado!
Euforia incontida!
Papai, como Juiz de Paz, assinou a Ata de Instalação do Município de Cel.
Fabriciano. Dr. Rubens foi o primeiro Prefeito. Mais tarde, papai como Juiz de
Paz assinou a elevação de Fabriciano a Comarca.
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