«Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus!»
(Mt 5, 9)
A mensagem do Papa Leão XIV ao encontro “Maria, caminho de diálogo e paz para o Mediterrâneo” oferece um convite oportuno para o atual contexto brasileiro.
Ao propor que se redescubram em Nossa Senhora os fundamentos do diálogo e da paz, o Santo Padre nos convida a uma reflexão da importância da escuta e da abertura ao outro, que também pode iluminar nossas relações familiares, comunitárias e políticas.
O fato de o encontro ter ocorrido em Perugia e Assis é especialmente significativo.
Assis, conhecida mundialmente como a terra de São Francisco, o “Poverello de Assis”, simboliza a humildade, o compromisso com a paz.
Depois das eleições, permanece uma tarefa que as urnas, sozinhas, não conseguem realizar: reconstruir a convivência.
Encerrada a disputa, as diferenças continuam legítimas, mas precisamos impedir que se transformem em inimizades permanentes.
O Brasil não precisa superar suas diferenças para seguir adiante.
Precisa aprender a conviver com elas sem permitir que se convertam em divisões irreparáveis e seus cidadãos deixarem de se reconhecer como integrantes da mesma comunidade.
Nesse cenário, a devoção a Nossa Senhora pode inspirar um compromisso de reconciliação.
Quando candidatos e lideranças de campos distintos se apresentam publicamente com sua imagem, declaram sua fé e pedem Sua intercessão, esses gestos também suscitam uma responsabilidade: traduzir a devoção em respeito, escuta e cuidado com o próximo, inclusive com aquele que votou de maneira diferente.
Segurar a imagem de Maria é um gesto de fé que pede consequências (compromissos) na vida.
Olhar para Maria, “mulher de fé e obediência a Deus”, é redescobrir a escuta e acolhimento ao próximo, pilares de todo diálogo que busca a paz e a fraternidade”.
Quem invoca a Mãe de Deus é chamado a reconhecer a dignidade de Seus filhos.
A devoção mariana é o caminho de aproximação a Cristo, que nos convida a imitar a Sua práxis de humildade, misericórdia e respeito ao diferente, evitando a palavra agressiva, a mentira conveniente e a satisfação diante da humilhação de quem não compartilha de nossas ideias.
Há muitos anos, o diálogo ecumênico busca aproximar os cristãos, enquanto o diálogo inter-religioso promove o encontro entre diferentes tradições religiosas.
São caminhos distintos, com questões teológicas profundas e diferenças que precisam ser respeitadas.
Ambos, porém, mostram a importância de perseverar no encontro: é possível cooperar, cultivar a confiança e trabalhar pela paz sem exigir que todos pensem ou creiam da mesma maneira.
Essa disposição tem muito a ensinar à vida política brasileira. Podemos discordar sobre governos, programas e prioridades e, ainda assim, reconhecer deveres comuns.
O que precisa permanecer é o compromisso com a dignidade humana e com a ideia de que a nação é maior do que qualquer partido, liderança ou resultado eleitoral.
Combater a fome, assegurar educação, cuidar da saúde, enfrentar a violência e proteger a dignidade humana são responsabilidades que atravessam as fronteiras partidárias.
Maria pode inspirar os que nela reconhecem uma referência de fé a dar o primeiro passo.
Sua presença na vida de tantas famílias brasileiras nos recorda a importância de escutar antes de julgar, de acolher sem alimentar hostilidades e de servir sem perguntar a preferência eleitoral de quem precisa de ajuda.
Essa contribuição deve chegar à vida pública com pleno respeito aos brasileiros de outras crenças e aos que não professam religião.
O diálogo é a verdadeira força que traz a paz, porque gera relações respeitosas visando obter o interesse comum e nunca impondo as próprias ideias.
(Fonte: Encíclica Magnifica Humanitas do Papa LEAO XIV).
Na política, governar exige ampliar adesões e reduzir resistências por meio do diálogo, da negociação e da confiança.
A unidade nacional se fortalece quando as pessoas encontram espaço para participar e percebem que suas necessidades são consideradas. Isso exige disposição para construir acordos reconhecendo que nenhuma corrente política esgota as esperanças do povo brasileiro.
A reconciliação também pede verdade, justiça e responsabilidade.
Aproximar as pessoas implica enfrentar as causas das rupturas, reparar ofensas e estabelecer formas respeitosas de lidar com os conflitos.
A paz começa a ganhar consistência quando se torna uma prática cotidiana, nas instituições, nas comunidades, nas famílias e nas redes sociais.
Que Nossa Senhora Aparecida interceda por esse reencontro.
Que inspire serenidade em quem venceu, esperança em quem perdeu e responsabilidade em todos os que exercem uma função pública.
Que nossas comunidades sejam lugares onde brasileiros de diferentes posições possam voltar a conversar e cooperar.
O Brasil é um só, embora sejam muitas as suas vozes.
Sob o olhar materno de Maria, aprendamos a fazer dessa diversidade uma convivência fecunda, orientada pelo bem comum.
Que a fé nos ajude a reconhecer, em cada rosto, alguém com quem partilhamos o presente e construiremos o futuro.
Coautores:'Pedro Luiz Dias e Sergio Alejandro Ribaric’, Teólogos.
Nota. Ambos os coautores são pesquisadores em Mariologia
 |
| Pedro Luiz Dias |
 |
| Sergio Alejandro Ribaric |