segunda-feira, 6 de abril de 2026

A Confissão. A Misericórdia. O Perdão.

A Interseção. (Lc 23,33)
 
Jesus, na sua vida pública, sempre revelou o perdão do Pai. O perdão foi a marca de sua vida. As primeiras palavras ditas pelo Cristo tão logo pregado na cruz e levantado aos olhos de todos: “Perdoa-os, eles não sabem o que fazem” não se referia apenas aos soldados romanos que acabaram de cravá-lo na cruz ou apenas aos homens que lhe fizeram mal. Tampouco a todos que escarneciam dele. Essa palavra, dita no início dos maiores tormentos que O aguardam, é mais um testamento para Sua Igreja: o grande sacramento do perdão. Jesus na Cruz consegue continuar vendo humanidade em seus verdugos, Ele consegue continuar crendo haver esperança para aqueles que o cravaram e cravam seus semelhantes na Cruz. Nesse grito por perdão, Jesus desbrava a vida, não deixando ser determinada pelos erros do passado. Nasce, da boca do próprio Deus, a promessa do perdão, resultado do amor infinito: O perdão de Deus é sem medidas porque surge de um amor sem medidas. Jesus não pede perdão ao Pai pelos males a Ele impingidos, mas ao mal que os homens fazem a eles mesmos, por tantas vezes sem o saber… Pendente da cruz, pedia perdão pela ignorância dos pecados cometidos, pela maldade causada e desconhecida, pelo mal causado ao próximo injustiçado e sofrido… E perdão por todo homem que peca sem saber a dimensão total do mal que causa! Ele (o homem) não sabe e nunca saberá a dimensão total de sua maldade praticada. Do mal imposto ao próximo. O pecado tem uma dimensão que o homem jamais poderá atingir e compreender. E é sobre essa dimensão, além de sua compreensão, que o crucificado clama por perdão! Não pede perdão pelos pregos que lhe perfuraram o corpo, nem pelos flagelos que o atormentam nesse momento, o perdão que Jesus pede ao Pai é pelos pecados que cada homem comete e cometerá, sem saber de suas verdadeiras consequências. O Deus que se encarnou conhece o homem. Conviveu com ele, sabe de seus medos e de suas deficiências. São seres sempre necessitados de ajuda e alimento espiritual. Precisam continuamente alimentar sua esperança num mundo que teima em limitá-los. Precisam continuamente da benevolência de Deus, da misericórdia infinita de um Deus que tem como limite uma medida ilimitada de amor. O filho de Deus morre intercedendo pela ignorância do homem mau, preocupado e intercedendo por perdão de alguém que comete o mal, sem saber que o faz. Clama ao Pai pelos homens que são incapazes de gritar por si próprios pela misericórdia e nem tão pouco sábios para saber de sua necessidade. Os atores desse mal estavam ali representados pelos soldados romanos que o crucificaram, pelo povo que zombava dele… Pai, perdoa-os, eles não sabem a quem crucificaram! Eles não sabem o valor desse momento e deste sofrimento! Perdoa-os, eles não sabem o que fazem com eles mesmos quando praticam o mal! O momento do sacramento do perdão se avizinha dessa forma. Muitas vezes, o homem não sabe o que confessar porque não sabe a dimensão do mal que fez, do pecado que cometeu, do sofrimento que impingiu. Como se apresentar a Deus repleto desse mal, desse pecado? No momento do confessionário, esse momento de intercessão na cruz se repete: Jesus pede por ele, suplica ao Pai pelos pecados que o homem não sabe que cometeu, portanto, não pode se arrepender, nem suplicar por perdão e misericórdia. Ao subir a cruz, suas primeiras palavras foram para esse mesmo homem que se ajoelha no confessionário e se confronta com sua consciência! É o momento sublime da intercessão do próprio filho de Deus pelo pecador. O perdoa, isentando-o até do arrependimento, porque sabe que muitas vezes desconhece o mal que cometeu. O pecado é e sempre será maior que o homem, por isso precisamos deste momento de Jesus.
Deus sempre será maior que o pecado! 
“O nosso testemunho seria excessivamente pobre, se não fôssemos primeiro contemplativos do seu rosto. Ao retomarmos o caminho de sempre, conservando na alma a riqueza das experiências vividas neste período muito especial, o olhar permanece mais intensamente fixo no rosto do Senhor” 
(João Paulo II, carta apostólica “Novo millennioineunte”, 16). 
Um homem, de joelhos num confessionário ou no silêncio de seu momento com Deus, pede perdão, precisa dessa reconciliação, como afirma o apóstolo Paulo: “Deixai-vos reconciliar com Deus” (2 Cor 5, 20), mesmo sem ter a consciência total do mal praticado. Como então se aproximar de Deus repleto de um mal que não tem consciência de que cometeu? Essa palavra do Cristo, esse momento, é o momento do sacramento da reconciliação, da misericórdia pelo mal ignorado, pelo mal praticado sem consciência de sua dimensão, do sofrimento causado aos demais. É Jesus que não só assume o pecado do mundo, mas se põe no lugar do confidente do penitente num confessionário frente ao Pai. Provoca, pede, suplica o perdão e ao mesmo tempo se oferece como sacrifício, assume a consequência desse mal praticado pelo homem. 
Aquele que confessa os seus pecados e os acusa, já está de acordo com Deus. Deus acusa os teus pecados; se tu também os acusas, juntas-te a Deus. O homem e o pecador são, por assim dizer, duas realidades distintas. Quando ouves falar do homem, foi Deus que o criou: quando ouves falar do pecador, foi o próprio homem quem o fez. Destrói o que fizeste, para que Deus salve o que fez. Quando começas a detestar o que fizeste, é então que começam as tuas boas obras, porque acusas as tuas obras más. O princípio das obras boas é a confissão das más. Praticaste a verdade e vens à luz,
(Santo Agostinho, In Iohannis evangeliumtractatus, 12, 13: CCL 36, 128 (PL 35, 1491)
Cada momento de Jesus no alto do madeiro é uma frase histórica, um ponto final e definitivo de sua missão. É chegada a hora de voltar ao Pai, de retornar aos seus braços com a humanidade como oferta de amor: a criação foi redimida, foi perdoada, retorna à casa do pai onde um dia saiu pelo pecado da soberba. Não sabia o que lhe reservava o externo do paraíso. Não sabia do suor de sua fronte, das dores do parto, do mal que a cada minuto lhe seria proposto… Não sabia. Nas palavras, “Pai, perdoa…” Ele pede ao Pai por todos naquele minuto de cruz! Na Redemptorhominis o Papa escreve de um “direito” que o crente possui diante de Deus, o direito de ser perdoado: 
É o direito a um encontro mais pessoal do homem com Cristo crucificado que perdoa, com Cristo que diz, por meio do ministro do sacramento da reconciliação: ‘Os teus pecados estão perdoados’; ‘Vai e de agora em diante não tornes a pecar’. Como é evidente, isto é, ao mesmo tempo o direito do próprio Cristo em relação a todos e a cada um dos homens por ele remidos. É o direito de encontrar-se com cada um de nós naquele momento-chave da vida humana, que é o momento da conversão e do perdão (RH, nº 20). 
O retorno ao Pai torna-se, nesse momento, uma realidade. É o caminho de volta que se abre ao homem. A eternidade que lhe é oferecida num ato de amor. Não havia outra maneira de reconciliar o homem com Deus: o amor oferecido só pode ser dado num ato de amor de igual dimensão: o amor do filho de Deus ao homem oferecido ao Pai num momento em que este assume o mal que o pecado cometido causa. 
“Tenhamos os olhos fixos no sangue de Cristo e compreendamos quanto Ele é precioso para o seu Pai, pois que, derramado para nossa salvação, proporcionou ao mundo inteiro a graça do arrependimento” .[1]
[1]São Clemente de Roma, Epistula ad Corinthios 7, 4: SC 167, 110. Extraído do CIC 1432.
DR. SÉRGIO RIBARIC

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