sábado, 22 de agosto de 2026

Preferência não é exclusividade: os pobres no coração de uma Igreja sinodal

Há palavras que, quando mal compreendidas, deixam de aproximar e começam a separar. 
Talvez seja esse o caso de duas expressões que precisam ser distinguidas com cuidado no interior da Igreja: preferência e exclusividade. 
A tradição cristã, especialmente a Doutrina Social da Igreja, consolidou a expressão “opção preferencial pelos pobres”. 
Ela encontra seu fundamento no próprio Evangelho, na maneira como Jesus se aproxima dos pequenos, dos enfermos, dos marginalizados, dos pecadores e de todos aqueles cuja dignidade havia sido ferida. 
Preferência, porém, nunca significou exclusividade. 
Jesus não constituiu uma comunidade destinada apenas aos pobres economicamente considerados. 
Ao seu redor encontramos pescadores e trabalhadores, mas encontramos também pessoas que possuíam bens, autoridades, cobradores de impostos e gente de diferentes condições sociais. 
Zaqueu é acolhido e transformado. 
José de Arimateia, homem de posses, aparece entre seus discípulos. 
Mulheres que dispunham de recursos ajudavam a sustentar a missão. 
O Evangelho não estabelece uma fronteira econômica para determinar quem pode aproximar-se de Cristo. 
Ao contrário: todos são chamados, embora nem todos necessitem do mesmo tipo de cuidado e com a mesma urgência.
É justamente aí que encontramos o sentido cristão da preferência. 
Quando uma família possui vários filhos e um deles está ferido, a mãe corre primeiro para aquele que sangra. 
Não porque ame menos os demais, mas porque naquele momento existe uma necessidade maior. 
A preferência nasce da urgência do amor. 
Assim também ocorre com os pobres. 
Aquele que não dispõe de alimento, moradia, saúde, trabalho, educação ou condições mínimas para viver com dignidade possui precedência no acolhimento e no atendimento de suas necessidades mais humanas. 
Essa precedência não diminui ninguém. 
Pelo contrário, procura restaurar uma igualdade ferida. 
A opção preferencial pelos pobres, portanto, não cria uma nova classe de excluídos. 
Ela deveria impedir que existam excluídos. 
O rico e a agulha 
A conhecida passagem evangélica segundo a qual é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus precisa igualmente ser recebida em toda a sua força. 
Cristo não está simplesmente condenando uma condição econômica.
Está advertindo sobre aquilo que a riqueza pode produzir no coração humano quando se transforma em segurança absoluta, fechamento, poder ou indiferença. 
A riqueza que termina em si mesma aprisiona. 
A riqueza que se transforma em partilha pode servir. E talvez esteja aqui uma dimensão que precisamos recuperar: o Evangelho não oferece ao rico apenas uma advertência; oferece-lhe também uma oportunidade de fraternidade.
Zaqueu compreendeu isso. 
Seu encontro com Cristo produziu consequências concretas: aquilo que possuía deixou de ser apenas propriedade e passou a adquirir uma dimensão de reparação e partilha. 
O pobre precisa ser acolhido em sua necessidade. 
O rico também precisa ser evangelizado em sua relação com os bens. 
Ambos precisam encontrar-se como irmãos. 
Uma Igreja sinodal não pode escolher quem excluir. 
Essa distinção torna-se especialmente importante quando falamos de uma Igreja sinodal. 
Sinodalidade significa caminhar juntos. 
E caminhar juntos exige reconhecer que existem pessoas em situações profundamente desiguais e que algumas delas precisam de atenção prioritária. 
Mas caminhar juntos também significa resistir à tentação de substituir uma exclusão por outra. 
Uma comunidade cristã que acolhesse somente aqueles que possuem bens teria traído o Evangelho. 
Da mesma maneira, uma comunidade que transformasse a condição econômica em critério para decidir quem merece pertencer também perderia a dimensão universal do chamado de Cristo. 
A mesa de Jesus é maior. 
Nela existe um lugar privilegiado para aquele que chega com fome, porque precisa ser alimentado primeiro. 
Mas há também lugar para aquele que possui pão — e que justamente por isso é convidado a descobrir a alegria de parti-lo. 
Talvez essa seja uma das imagens mais bonitas da Igreja que buscamos construir. 
Não uma Igreja dos pobres contra os ricos. 
Não uma Igreja dos ricos que simplesmente assiste aos pobres. 
Mas uma Igreja de irmãos na qual os mais frágeis possuem precedência e aqueles que receberam mais compreendem que seus dons, capacidades e bens trazem consigo responsabilidade. 
A preferência pelos pobres não diminui a universalidade do Evangelho. 
Ao contrário. 
É justamente porque o Evangelho é destinado a todos que ele nos ensina a começar por aqueles que mais precisam.
Preferência é prioridade no amor. 
Exclusividade seria limite ao amor. 
E o amor cristão, quando verdadeiramente evangélico, não conhece fronteiras: conhece apenas irmãos que caminham juntos, alguns necessitando ser sustentados e outros aprendendo a estender as mãos. 
Talvez seja exatamente isso que uma Igreja verdadeiramente sinodal precise reaprender: ninguém caminha sozinho, ninguém fica para trás e ninguém está dispensado da fraternidade. 
Pedro Luiz Dias 
Família Leiga Redentorista

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