sábado, 5 de setembro de 2026

MORAL CATÓLICA E SANTO AFONSO

Do confessionário à vida: o diálogo da salvação

Ainda tenho diante dos olhos a leitura do livro pós-doutoral do Pe. Luiz Henrique Brandão de Figueiredo, C.Ss.R., Acompanhar, discernir e integrar: Santo Afonso Maria de Ligório e o ministério do confessor. Esse não pode ser um livro que vá ficar na prateleira apenas para fazer pesquisas. É um livro que também anima a nós, leigos, no entendimento do ministério da confissão - ou, como bem coloca a obra, no diálogo da confissão, no diálogo da salvação.

E talvez esteja justamente aí uma das grandes contribuições de Santo Afonso para os nossos tempos. O que se passa no confessionário não pode ficar restrito ao confessionário. Acompanhar, discernir e integrar são verbos que dizem respeito também à vida cristã, à missão dos leigos, à família, às comunidades e à maneira como encontramos aqueles que pensam, vivem e creem de modo diferente de nós.

A sociedade contemporânea, inclusive dentro da própria Igreja, apresenta movimentos que podem dificultar esse diálogo. O fundamentalismo transforma convicções em certezas impermeáveis ao encontro. O tribalismo divide o mundo entre “nós” e “eles”. O racionalismo, quando absoluto, pretende submeter até o mistério àquilo que a razão consegue demonstrar. A tecnocracia corre o risco de medir o humano apenas pela eficiência. O niilismo, por sua vez, esvazia o sentido e a esperança. E a imanência fechada encerra o ser humano dentro de si mesmo, sem abertura ao outro, ao transcendente e a Deus.

Na experiência religiosa existe ainda outro perigo: transformar a fé numa coleção de normas. É o nomismo, ou legalismo, quando a lei deixa de servir à pessoa e a pessoa passa a existir para servir à lei.

Essa tensão não é nova.

Entre o rigor e a permissividade

Santo Afonso conheceu uma Igreja profundamente marcada pelas grandes discussões da teologia moral de seu tempo. De um lado estava o rigorismo, fortalecido em determinados ambientes pela influência do jansenismo, com sua visão severa do pecado, da graça e da dignidade necessária para aproximar-se dos sacramentos. O perigo era fazer nascer uma religião do medo, do escrúpulo e do afastamento.

No extremo contrário estava o laxismo, capaz de enfraquecer a responsabilidade moral em nome de uma liberdade excessivamente permissiva.

Afonso percebeu que nenhum desses extremos respondia plenamente ao Evangelho.

Sua reflexão sobre o probabilismo e, posteriormente, sua formulação equiprobabilista procurava enfrentar uma questão profundamente humana: o que fazer quando a consciência, sinceramente, não encontra absoluta certeza sobre a obrigação moral?

Não se tratava de procurar uma saída fácil para a lei. Tratava-se de impedir que uma lei duvidosa se transformasse automaticamente numa condenação da consciência.

É justamente aí que encontramos a extraordinária atualidade de Santo Afonso.

Acompanhar antes de julgar

O pecador que chega diante do confessor não é um número, uma tese ou um verbete de manual de teologia moral. É uma pessoa. Tem história, circunstâncias, fraquezas, responsabilidades, sofrimentos e possibilidades.

Por isso, acompanhar significa aproximar-se.

Discernir significa compreender antes de sentenciar.

Integrar significa não abandonar aquele que ainda está percorrendo o caminho.

Essa dinâmica interessa profundamente ao leigo redentorista. Não porque o leigo vá assumir o ministério sacramental próprio do sacerdote, mas porque também somos chamados a exercer uma verdadeira pastoral do encontro no cotidiano.

Na família, no trabalho, na comunidade, nas redes sociais, nas pastorais e nos ambientes onde as diferenças parecem cada vez mais inconciliáveis, podemos escolher entre levantar muros ou construir pontes.

A kénosis: esvaziar-se para encontrar

Talvez exista uma palavra capaz de iluminar todas as demais: kénosis.

Cristo, como nos recorda o hino da Carta aos Filipenses, esvazia-se, assume a condição de servo e aproxima-se radicalmente da condição humana (cf. Fl 2,6-8).

O movimento de Deus é, portanto, em direção ao homem.

Essa é uma chave fundamental para compreender o diálogo da salvação. Deus não permanece distante esperando que a humanidade consiga chegar até Ele. Em Cristo, Deus vem ao nosso encontro.

Por isso, evangelizar também exige uma espécie de kénosis. Precisamos esvaziar-nos da pretensão de possuir todas as respostas, do desejo de vencer discussões, dos preconceitos, das classificações apressadas e até de determinadas seguranças que nos impedem de ouvir.

Não significa relativizar a verdade. Significa aprender como a verdade cristã deve ser oferecida: na caridade.

Do confessionário para o mundo

Talvez essa seja uma das provocações mais bonitas que a leitura de Acompanhar, discernir e integrar pode oferecer aos leigos.

O método pastoral de Santo Afonso não precisa permanecer atrás da grade de um confessionário.

Ele pode atravessar suas portas.

Pode chegar às famílias, às periferias, aos ambientes profissionais, às universidades, às redes sociais e às nossas próprias comunidades.

Diante do fundamentalismo, diálogo.

Diante do tribalismo, fraternidade.

Diante do rigorismo, misericórdia.

Diante do laxismo, responsabilidade.

Diante do niilismo, esperança.

Diante da imanência fechada, transcendência.

E diante de cada pessoa concreta: acompanhar, discernir e integrar.

Porque a missão redentorista nasce de uma certeza que atravessa os séculos: em Cristo, a Redenção não é escassa, seletiva ou reservada a poucos. Ela é abundante.

Copiosa apud eum redemptio. Junto d’Ele, abundante é a Redenção.

Família Leiga Redentorista 

PEDRO LUIZ DIAS

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