Do confessionário à vida: o diálogo da salvação
Ainda tenho diante dos olhos a leitura do livro pós-doutoral do Pe.
Luiz Henrique Brandão de Figueiredo, C.Ss.R., Acompanhar, discernir e
integrar: Santo Afonso Maria de Ligório e o ministério do confessor. Esse
não pode ser um livro que vá ficar na prateleira apenas para fazer pesquisas. É
um livro que também anima a nós, leigos, no entendimento do ministério da
confissão - ou, como bem coloca a obra, no diálogo da confissão, no diálogo
da salvação.
E talvez esteja justamente aí uma das grandes contribuições de Santo
Afonso para os nossos tempos. O que se passa no confessionário não pode ficar
restrito ao confessionário. Acompanhar, discernir e integrar são verbos
que dizem respeito também à vida cristã, à missão dos leigos, à família, às
comunidades e à maneira como encontramos aqueles que pensam, vivem e creem de
modo diferente de nós.
A sociedade contemporânea, inclusive dentro da própria Igreja, apresenta
movimentos que podem dificultar esse diálogo. O fundamentalismo
transforma convicções em certezas impermeáveis ao encontro. O tribalismo
divide o mundo entre “nós” e “eles”. O racionalismo, quando absoluto,
pretende submeter até o mistério àquilo que a razão consegue demonstrar. A tecnocracia
corre o risco de medir o humano apenas pela eficiência. O niilismo, por
sua vez, esvazia o sentido e a esperança. E a imanência fechada encerra
o ser humano dentro de si mesmo, sem abertura ao outro, ao transcendente e a
Deus.
Na experiência religiosa existe ainda outro perigo: transformar a fé numa
coleção de normas. É o nomismo, ou legalismo, quando a lei deixa de
servir à pessoa e a pessoa passa a existir para servir à lei.
Essa tensão não é nova.
Entre o rigor e a permissividade
Santo Afonso conheceu uma Igreja profundamente marcada pelas grandes
discussões da teologia moral de seu tempo. De um lado estava o rigorismo,
fortalecido em determinados ambientes pela influência do jansenismo, com
sua visão severa do pecado, da graça e da dignidade necessária para
aproximar-se dos sacramentos. O perigo era fazer nascer uma religião do medo,
do escrúpulo e do afastamento.
No extremo contrário estava o laxismo, capaz de enfraquecer a
responsabilidade moral em nome de uma liberdade excessivamente permissiva.
Afonso percebeu que nenhum desses extremos respondia plenamente ao
Evangelho.
Sua reflexão sobre o probabilismo e, posteriormente, sua
formulação equiprobabilista procurava enfrentar uma questão
profundamente humana: o que fazer quando a consciência, sinceramente, não
encontra absoluta certeza sobre a obrigação moral?
Não se tratava de procurar uma saída fácil para a lei. Tratava-se de
impedir que uma lei duvidosa se transformasse automaticamente numa condenação
da consciência.
É justamente aí que encontramos a extraordinária atualidade de Santo
Afonso.
Acompanhar antes de julgar
O pecador que chega diante do confessor não é um número, uma tese ou um
verbete de manual de teologia moral. É uma pessoa. Tem história,
circunstâncias, fraquezas, responsabilidades, sofrimentos e possibilidades.
Por isso, acompanhar significa aproximar-se.
Discernir significa compreender antes de
sentenciar.
Integrar significa não abandonar aquele que
ainda está percorrendo o caminho.
Essa dinâmica interessa profundamente ao leigo redentorista. Não porque o
leigo vá assumir o ministério sacramental próprio do sacerdote, mas porque
também somos chamados a exercer uma verdadeira pastoral do encontro no
cotidiano.
Na família, no trabalho, na comunidade, nas redes sociais, nas pastorais
e nos ambientes onde as diferenças parecem cada vez mais inconciliáveis,
podemos escolher entre levantar muros ou construir pontes.
A kénosis: esvaziar-se para encontrar
Talvez exista uma palavra capaz de iluminar todas as demais: kénosis.
Cristo, como nos recorda o hino da Carta aos Filipenses, esvazia-se,
assume a condição de servo e aproxima-se radicalmente da condição humana (cf.
Fl 2,6-8).
O movimento de Deus é, portanto, em direção ao homem.
Essa é uma chave fundamental para compreender o diálogo da salvação.
Deus não permanece distante esperando que a humanidade consiga chegar até Ele.
Em Cristo, Deus vem ao nosso encontro.
Por isso, evangelizar também exige uma espécie de kénosis.
Precisamos esvaziar-nos da pretensão de possuir todas as respostas, do desejo
de vencer discussões, dos preconceitos, das classificações apressadas e até de
determinadas seguranças que nos impedem de ouvir.
Não significa relativizar a verdade. Significa aprender como a verdade
cristã deve ser oferecida: na caridade.
Do confessionário para o mundo
Talvez essa seja uma das provocações mais bonitas que a leitura de Acompanhar,
discernir e integrar pode oferecer aos leigos.
O método pastoral de Santo Afonso não precisa permanecer atrás da grade
de um confessionário.
Ele pode atravessar suas portas.
Pode chegar às famílias, às periferias, aos ambientes profissionais, às
universidades, às redes sociais e às nossas próprias comunidades.
Diante do fundamentalismo, diálogo.
Diante do tribalismo, fraternidade.
Diante do rigorismo, misericórdia.
Diante do laxismo, responsabilidade.
Diante do niilismo, esperança.
Diante da imanência fechada, transcendência.
E diante de cada pessoa concreta: acompanhar, discernir e integrar.
Porque a missão redentorista nasce de uma certeza que atravessa os
séculos: em Cristo, a Redenção não é escassa, seletiva ou reservada a poucos.
Ela é abundante.
Copiosa apud eum redemptio. Junto d’Ele, abundante é a Redenção.
Família Leiga Redentorista
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| PEDRO LUIZ DIAS |


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