quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

NEGROS NO SANTO AFONSO

Já abordei esse assunto em outras postagens. No Colegião, formávamos uma legião, talvez duzentos seminaristas, a maioria de tez branca, os gaúchos, alemães; o pessoal de Tietê e arredores, italianos; os goianos, um pouquinho mais morenos. Saíamos, a passeio, pelo portão de entrada,íamos ao Potim e, também, a outros lugares que nos eram comuns. Logo na saída, éramos abordados, algumas vezes, por um senhor simpático, alto e negro . Inquiria-nos o porquê não existir entre nós pessoas negras. O padre aconselhava-nos a ignorar o personagem. Tudo aquilo me deixava intrigado. Na verdade, os negros não eram convidados a ingressar no seminário. Os padres alemães tinham alguma orientação. Explico, os primeiros seminaristas, concluído o ensino médio e feito o noviciado, seguiam para a Baviera e ali concluíam os estudos de filosofia e teologia, a Alemanha Nazista não aceitava negros. Pois bem, já em 1954, no Santo Afonso, onde já abrigávamos seminaristas da província de Campo Grande, administrada por padres americanos, foi também concedida a presença de seminaristas da província de Manaus, igualmente americana. Chegaram os primeiros três seminaristas daquelas paragens. Preparamos a recepção, uma música em inglês :- "I am glad, yes,I am glad, yes, I am glad with your arrival here.. Chegaram os três amazonenses, à frente um padre americano. Dois bugres e um negro. Padre Ribolla desabafou :- "Esses americanos me trazem problemas" . Fiquei decepcionado com nosso diretor., O negro, Pedro, se tornou meu grande amigo, tocador de violão e cantor, conquistou a amizade de todos, foi o precursor de uma comunidade que cresceu e engrandeceu nossa congregação, que, hoje, não é mais branca e tem em seu seio padres advindos de todas as raças , ricas em cultura e que nos trazem orgulho de nossas origens mestiças. Dumas 

Fico admirado em ver que naquele tempo racismo era tão comum que para mim era normal: tudo isso. Na minha cidade havia um clube que não aceitava negro, nem como visitante. Eu era tão besta que nunca iria pensar que aquilo era uma segregação e racismo, mas ao mesmo tempo, tinha colegas na escola e no catecismo que eram negros, mas eu nunca vi diferença neles. Eu tinha uma benzedeira, de plantão, pois eu morria de vez em quando por causa de lombrigas e vermes e  Da. Josefa era benzedeira e negra e, se eu estou vivo, é porque ela cuidou de mim como minha mãe. Ela tinha um filhinho e, como eu o vi mamando, ela teve que me dar de mamar para não morrer de lombriga, pois já era desmamado. No seminário, entrei la em 1955. e nunca notei que não havia negro por lá. Eu estava muito aquém de vocês, Não sei se eu era muito besta ou inocente, só sei que era assim. No meu serviço, eu era selecionador de pessoal. Trabalhava numa firma Suiça, só tinha alemão na direção. Uma vez eu contratei um office boy com aquele cabelo brackpower dos anos setenta, que precisava de um boné gigantesco para segurar todo aquele cabelo. Ele frequentava a Galeria 24 de Maio, quem viveu por lá na época sabe do que estou falando. Na primeira correspondência que ele foi entregar para o Sr.Fritz, fui chamado lá e ele me disse: Foi você que contratou esse garoto? Eu falei que sim. Ele falou ou ele corta esse cabelo ou os dois estão na rua. Ele cortou o cabelo, assegurou o emprego dele e o meu. e por lá trabalhou muito tempo.Tenho outras histórias ainda. Abner 
Um dia, depois de casado, fui fazer uma visita no seminário Santo Afonso e convidei o Padre Brandão para nos levar até a Pedrinha para fazer uma recordação daquele belo lugar. E eu me lembro que conversávamos no terraço da Pedrinha e admirávamos aquela paisagem linda da Pedrinha, da Pedrona, do morro dos Gigantes, dos Campos etc. e além daquelas perguntas sobre se houvesse gente na lua por exemplo, ou em algum outro planeta, se Jesus também teria morrido para os salvá-los etc... eu me lembro que eu fiz esta pergunta para ele: Padre porque que o seminário não tem seminaristas negros? e a resposta dele foi que eles davam muitos problemas. Naquele tempo teve um menino negro que foi encontrado dentro da cabine telefônica com um garoto "bonitinho" e eu me lembro que naquele dia caiu uma bomba no seminário, o Padre Rodrigues chamou todo mundo para a capela e lá fez um discurso que até hoje me lembro do clima que aquilo gerou no seminário. E aí o padre Brandão me disse nesse passeio que havia sido combinado pelos padres a nunca mais admitir um menino negro como seminarista. Natanael de Jesus Criado 
Caros colegas, sempre amigos, Dumas, Abner, Natanael! Vocês nos trazem um tema nunca debatido: A PRESENÇA DE SEMINARISTA NEGRO NO SRSA! De fato, estive no seminário entre 1957 e 1962. Não havia negros, nem seminaristas e nem mesmo religiosos e sacerdotes. Recordo-me de alguns goianos e amazonenses que tinham a tez um pouco mais escura, mas não se consideravam negros. O Abner lembra-me ainda o fato que também trabalhei por 13 anos, entre 1971 e 1984, em uma empresa multinacional alemã de Frankfurt, HOECHST DO BRASIL S/A.Não havia funcionários negros nos escritórios...notei alguns nos depósitos...mas também não havia na fábrica em Suzano.Assim a tese germânica sobre isso é correta, pois tanto no SRSA, como nas empresas alemãs não se encontravam negros. Até lembro-me que nessa época, anos 50/70, em razão da falta de maior comunicação, o marginal era sempre negro. Amigos, esse é um tema muito interessante, ainda que lamentavelmente real. 
A propósito, vejam esta foto dos juvenistas e sacerdotes do Seminário Santo Afonso em 1961....NENHUM NEGRO....eram umas duzentas pessoas.....Ierárdi

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