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| PEDRO LUIZ DIAS |
Aprendendo com o
passado
Domingos Zamagna (*)
No início do ano
costumamos fazer uma revisão do passado e nos dispomos para um futuro mais
esperançoso. Uma revisão que pode nos
ajudar na caminhada, mas infelizmente pode também ser francamente desviante. A
mídia tenta nos ajudar nessa tarefa.
Mas todos os anos – acabamos de verificar – acaba sendo a mesma cantilena. Anunciam-se Natal, Ano Novo com os mesmos clichês. Temos que evocar aqui o chamado “princípio de economia”. A previsibilidade, a redundância étal que nem precisamos ler, ouvir ou ver o que se publica. Um brinde do mais do mesmo. O tempo é escasso, não vale a pena nos ocupar com irrelevâncias.
Somos abastecidos com a
orgia dos números. Como se a quantidade necessariamente alterasse a qualidade.
Alguns veículos – uns
copiando os outros – esquentam os motores com as famosas retrospectivas.
Sabemos que muitas produções da imprensa atendem mais às necessidades dos
departamentos comerciais, publicitários, das empresas e dos governos, do que
uma paixão pela informação de qualidade. Os repórteres, os redatores fazem o
que podem, mas não escapam da camisa-de-força, do pente fino dos editores, das
chefias, dos donos/acionistas das empresas. É sabido que a maioria dos
brasileiros é alimentadapelas pautas impostas por cinco ou seis famílias.
O assunto é longo. Mas
gostaria de chamar a atenção para o que se vem chamando de retrospectiva. A
seleção e numeração de fatos poderia ser seguida de avaliações com competência
e dignidade, sem precisar imitar um álbum de figurinhas ou uma fogueira de
vaidades dos mais famosos, dos mais bem pagos.
O que mais preocupa,
porém, é a concepção de história que sustenta o palavreado e as imagens (nada
como um bom e rendoso arquivo morto), a partir de um cenário glamouroso onde
até as catástrofes são recordadas com um sorriso. Nessa concepção de história,
tudo parte de cima, uma pirâmide sem base: as guerras, as concentrações da
riqueza, a corrupção, o grandioso para esconder o pequeno. Por exemplo: Não
existe África, parece que ali não há vida, não aconteceu nada; não existe vida
operária, sindical, voluntariado, conquistas espaciais que estão revelando um
universo desconhecido; esqueceram até do agronegócio, que repetidamente se diz
ser o motor da economia.
Gravíssima a omissão
dos fatos relevantes do mundo educacional e sanitário, revelando o descaso com
parte substantiva de nossa realidade. Todos os anos os institutos
especializados anunciam quantos morrerão de fome, de câncer etc. E sabemos que
isso não é fruto do acaso, muitas vezes é consequência de planejamento obsceno.
É claro que não podemos
ignorar os fatos ruidosos. Mas seria pedir demais que se atentasse para o que vai
além das lantejoulas, dos ouropéis, do coruscante?
O conjunto dos fatos
parece não ter hierarquia nem relevo, tudo se afigurando no mesmo nível. Não
deveria ser necessário buscar alternativas em outros países longínquos para que
entre nós se desenvolvesse uma mídia capaz de explicar a dinâmica e a evolução dos sistemas
complexos, as retroações, os equilíbrios, as diversidades. A sabedoria dos
simples vem se dedicando a este saber.Por que a ciência analítica entre nós,
tantas vezes, tende a se acomodar com as platitudes?
Trata-se de uma visão
fundamentalista da história, que não discerne o âmago dos acontecimentos, nivelada
ao que há de mais retrógrado e violento. Seria pedir demais aos editores de
plantão uma leitura de Teilhard de Chardin, um paleontólogo que conheceu tão
profundamente o passado a ponto de poder intuir sua cosmogênese. Isso suporia um
mergulho na periodização da história, na organização da matéria, na biologia
genética, na psicologia das ideias etc. Mas é aí que as grandezas mudam de
aspectos, estado ou natureza. Sem precisar ir tão longe, será que não houve
nada de significativo entre as professoras e professores do Brasil, aos quais
não se costuma dar visibilidade? Dos trabalhadores que, com tão pouca terra,
conseguem produzir alimentos abundantes e de qualidade? De comunidades
indígenas que lutam pela preservação das florestas brasileiras? De comunidades periféricas
inventivas na alfabetização e promoção da cultura? Os exemplos são incontáveis,
obviamente para quem desejasse descobrir as forças vivas de uma nação.
Não posso deixar de
assinalar, para concluir estes poucos exemplos, que existe no mundo um
dinamismo hoje quase oculto, muitas vezes desdenhado, votado à
instrumentalização ouao esquecimento dos poderosos, e até perseguido, que são
as religiões. Falo de religiões e não de simulacros de religiões. Estão entre
asprincipais gestoras de fatos novos, fecundando os povos com um fermento de
vida. De seu seio brotam fatos e processos que ultrapassam os exibicionismos
dos brig-brothers, a fugacidade novelesca, a inconsistência das pirotecnias
ideológicas. Elas guardam memórias de um passado não esquecidiço, mas
restaurador do tecido da humanidade, pelo perdão e pelo amor, que abriga aquilo
que Charles Péguy (1873-1914) chamou de “uma margem do futuro do lado do
presente” (cebord de l’avenirdu côté duprésent). A memória pagã leva ao esquecimento; a memória
cristã conduz ao comprometimento.
(*) Jornalista profissional e
professor de Filosofia.
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| Domingos Zamagna |


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