sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Professor Domingos Zamagna

PEDRO LUIZ DIAS
Ao longo da minha caminhada universitária (trabalhando como escriturário em Secretarias de várias Faculdades, assistente na reitoria de ensino e pesquisa, depois Secretário de importantes universidades, aluno, monitor e professor universitário) conheci Mestres e Doutores memoráveis. Na Faculdade de Teologia conheci muitos deles. Hoje destaco o texto do Professor Domingos Zamagna. Um ex-clérigo que é uma verdadeira biblioteca ambulante. Um orador da melhor estirpe.

Aprendendo com o passado

Domingos Zamagna (*)

No início do ano costumamos fazer uma revisão do passado e nos dispomos para um futuro mais esperançoso.  Uma revisão que pode nos ajudar na caminhada, mas infelizmente pode também ser francamente desviante. A mídia tenta nos ajudar nessa tarefa.

Mas todos os anos – acabamos de verificar – acaba sendo a mesma cantilena. Anunciam-se Natal, Ano Novo com os mesmos clichês. Temos que evocar aqui o chamado “princípio de economia”. A previsibilidade, a redundância étal que nem precisamos ler, ouvir ou ver o que se publica. Um brinde do mais do mesmo. O tempo é escasso, não vale a pena nos ocupar com irrelevâncias.

Somos abastecidos com a orgia dos números. Como se a quantidade necessariamente alterasse a qualidade.

Alguns veículos – uns copiando os outros – esquentam os motores com as famosas retrospectivas. Sabemos que muitas produções da imprensa atendem mais às necessidades dos departamentos comerciais, publicitários, das empresas e dos governos, do que uma paixão pela informação de qualidade. Os repórteres, os redatores fazem o que podem, mas não escapam da camisa-de-força, do pente fino dos editores, das chefias, dos donos/acionistas das empresas. É sabido que a maioria dos brasileiros é alimentadapelas pautas impostas por cinco ou seis famílias.

O assunto é longo. Mas gostaria de chamar a atenção para o que se vem chamando de retrospectiva. A seleção e numeração de fatos poderia ser seguida de avaliações com competência e dignidade, sem precisar imitar um álbum de figurinhas ou uma fogueira de vaidades dos mais famosos, dos mais bem pagos.

O que mais preocupa, porém, é a concepção de história que sustenta o palavreado e as imagens (nada como um bom e rendoso arquivo morto), a partir de um cenário glamouroso onde até as catástrofes são recordadas com um sorriso. Nessa concepção de história, tudo parte de cima, uma pirâmide sem base: as guerras, as concentrações da riqueza, a corrupção, o grandioso para esconder o pequeno. Por exemplo: Não existe África, parece que ali não há vida, não aconteceu nada; não existe vida operária, sindical, voluntariado, conquistas espaciais que estão revelando um universo desconhecido; esqueceram até do agronegócio, que repetidamente se diz ser o motor da economia.

Gravíssima a omissão dos fatos relevantes do mundo educacional e sanitário, revelando o descaso com parte substantiva de nossa realidade. Todos os anos os institutos especializados anunciam quantos morrerão de fome, de câncer etc. E sabemos que isso não é fruto do acaso, muitas vezes é consequência de planejamento obsceno.

É claro que não podemos ignorar os fatos ruidosos. Mas seria pedir demais que se atentasse para o que vai além das lantejoulas, dos ouropéis, do coruscante?

O conjunto dos fatos parece não ter hierarquia nem relevo, tudo se afigurando no mesmo nível. Não deveria ser necessário buscar alternativas em outros países longínquos para que entre nós se desenvolvesse uma mídia capaz de explicar  a dinâmica e a evolução dos sistemas complexos, as retroações, os equilíbrios, as diversidades. A sabedoria dos simples vem se dedicando a este saber.Por que a ciência analítica entre nós, tantas vezes, tende a se acomodar com as platitudes?

Trata-se de uma visão fundamentalista da história, que não discerne o âmago dos acontecimentos, nivelada ao que há de mais retrógrado e violento. Seria pedir demais aos editores de plantão uma leitura de Teilhard de Chardin, um paleontólogo que conheceu tão profundamente o passado a ponto de poder intuir sua cosmogênese. Isso suporia um mergulho na periodização da história, na organização da matéria, na biologia genética, na psicologia das ideias etc. Mas é aí que as grandezas mudam de aspectos, estado ou natureza. Sem precisar ir tão longe, será que não houve nada de significativo entre as professoras e professores do Brasil, aos quais não se costuma dar visibilidade? Dos trabalhadores que, com tão pouca terra, conseguem produzir alimentos abundantes e de qualidade? De comunidades indígenas que lutam pela preservação das florestas brasileiras? De comunidades periféricas inventivas na alfabetização e promoção da cultura? Os exemplos são incontáveis, obviamente para quem desejasse descobrir as forças vivas de uma nação.

Não posso deixar de assinalar, para concluir estes poucos exemplos, que existe no mundo um dinamismo hoje quase oculto, muitas vezes desdenhado, votado à instrumentalização ouao esquecimento dos poderosos, e até perseguido, que são as religiões. Falo de religiões e não de simulacros de religiões. Estão entre asprincipais gestoras de fatos novos, fecundando os povos com um fermento de vida. De seu seio brotam fatos e processos que ultrapassam os exibicionismos dos brig-brothers, a fugacidade novelesca, a inconsistência das pirotecnias ideológicas. Elas guardam memórias de um passado não esquecidiço, mas restaurador do tecido da humanidade, pelo perdão e pelo amor, que abriga aquilo que Charles Péguy (1873-1914) chamou de “uma margem do futuro do lado do presente” (cebord de l’avenirdu côté duprésent). A memória pagã leva ao esquecimento; a memória cristã conduz ao comprometimento.

(*) Jornalista profissional e professor de Filosofia.

Domingos Zamagna

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