“O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres.” (Lc 4,18)
Às vésperas da memória litúrgica de Santo Afonso Maria de Ligório, celebrada em 1º de agosto, vale recordar a impressionante atualidade da vida e do pensamento desse grande Doutor da Igreja.
Nascido em uma família da nobreza do Reino de Nápoles, Afonso destacou-se, ainda muito jovem, como advogado de raro talento.
Entretanto, uma profunda decepção diante das injustiças e da corrupção que permeavam o ambiente forense de seu tempo levou-o a abandonar uma carreira promissora.
Não foi apenas uma mudança de profissão, mas uma verdadeira conversão de vida, motivada pelo chamado de Deus.
Em vez de buscar prestígio e reconhecimento, Afonso voltou-se para as regiões montanhosas de Scala, onde viviam pastores, cabreiros e famílias praticamente esquecidas pela assistência religiosa.
Foi nesse encontro com os mais abandonados que descobriu sua verdadeira vocação: anunciar o Evangelho aos pobres e devolver-lhes a esperança.
Dessa experiência nasceu, em 1732, a Congregação do Santíssimo Redentor.
Nesse caminho, a Beata Maria Celeste Crostarosa desempenhou papel decisivo ao compartilhar sua profunda experiência espiritual, contribuindo para a consolidação do carisma redentorista.
Unidos pela convicção da Copiosa Redenção - a certeza de que a redenção oferecida por Cristo é abundante e destinada a toda a humanidade - ambos ajudaram a construir uma espiritualidade marcada pela misericórdia, pela proximidade e pelo compromisso com os mais necessitados.
Quase três séculos depois, a teologia de Santo Afonso continua surpreendentemente atual.
O mundo assiste, muitas vezes com perplexidade, ao crescimento da concentração de riquezas enquanto milhões de pessoas permanecem privadas das condições mínimas para uma vida digna.
É verdade que a humanidade avançou extraordinariamente.
As ciências sociais, a medicina, a educação, as políticas públicas e a tecnologia proporcionaram inegáveis conquistas.
Também o Brasil experimentou importantes progressos em diversas áreas.
Ainda assim, persistem bolsões de pobreza, exclusão e sofrimento que desafiam a consciência cristã e exigem respostas concretas.
É justamente nesse contexto que o pensamento afonsiano recupera toda a sua força.
Não se trata de uma teologia ideológica nem de uma leitura partidária da realidade.
Trata-se de uma teologia da Encarnação, da proximidade e da misericórdia; uma teologia que sai ao encontro das pessoas, promove sua dignidade, fortalece a esperança e transforma a fé em compromisso concreto com a vida.
Santo Afonso compreendeu que evangelizar significava aproximar-se daqueles que mais necessitavam da presença amorosa de Deus.
Sua teologia não permaneceu restrita aos livros ou às academias.
Tornou-se ação pastoral, acolhimento, escuta e serviço.
Talvez seja exatamente essa a maior necessidade do nosso tempo: menos discursos e mais testemunhos; menos indiferença e mais compaixão.
Celebrar Santo Afonso Maria de Ligório, Doutor da Igreja, significa renovar esse compromisso.
Significa reconhecer que a verdadeira grandeza do cristianismo se manifesta quando Deus é encontrado no rosto dos pobres, dos esquecidos, dos enfermos, dos idosos, das crianças e de todos aqueles cuja dignidade pede para ser reconhecida.
A espiritualidade afonsiana permanece resumida em uma certeza que continua iluminando o caminho da Igreja: Deus ama cada pessoa com amor infinito e oferece a todos uma redenção abundante.
Por isso, uma das expressões mais belas atribuídas a Santo Afonso permanece atual e profundamente transformadora: “Deus nos ama.”
Que essa simples convicção continue inspirando homens e mulheres de boa vontade a construir uma sociedade mais justa, fraterna e solidária, na qual a fé seja sempre traduzida em misericórdia e em serviço ao próximo.
Bacharel em Teologia, pela Faculdade São Bento, SP.
É executivo de comunicação e relações institucionais e membro da Família Leiga Redentorista, Província Nossa Senhora Aparecida, SP.


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